Relações familiares no trabalho

Conquistar um posto de trabalho dentro uma empresa da própria família parece tornar mais fácil o cotidiano profissional, o que nem sempre é verdade. O estreito conhecimento dos costumes de um familiar pode tornar difícil o respeito do então colega de trabalho, como um profissional, e não como alguém que se convive de forma íntima.

A questão em jogo são os nossos preconceitos e aí temos dois aspectos:

- acreditamos que a postura do outro na sua casa será retratada no seu comportamento profissional, o que nem sempre é uma verdade. Este jeito diferente de ser na família e na profissão se dá pelas convenções sociais (fazendo com que sejamos mais "polidos") e pelas dificuldades de relação existentes no núcleo familiar (que desgastam a relação). Este duplo comportamento, onde a pessoa se vê usando máscaras no seu cotidiano, causa sofrimento e com freqüência só é possível entender o processo com o auxílio de um profissional especializado, um psicólogo, por exemplo.

Frente a máscaras e convenções, percebemos que retratar o comportamento familiar no trabalho e vice-versa, é apenas um preconceito. Devemos estar muito atentos a isso, pois a forma como concebemos algo é a forma que propiciamos o seu acontecimento, ou seja, se eu acredito que o meu irmão não respeita as hierarquias (pois em casa é assim), é provável que no trabalho eu me dirija a ele com uma postura diferente daquela que tenho em relação aos outros funcionários... gerando assim, o comportamento que eu preconcebia. Há necessidade então, de darmos espaço para o nosso familiar colocar-se profissionalmente.

· Concebemos que a empresa também é do nosso familiar empregado, mesmo que ele não participe dos lucros nem projetos. é verdade que nem sempre o funcionário tem capacidade para tal, mas se o percebemos incapaz para lucros e projetos, porque onerá-lo com responsabilidades de proprietário se de fato não o é? É claro que temos o elemento confiança fortificado pelo parentesco, mas não podemos confundi-la com a não necessidade de orientação no trabalho. De forma mais próxima, é um funcionário.

· Um terceiro aspecto dos nossos preconceitos é quando não reconhecemos devidamente o trabalho do nosso familiar, principalmente quanto ao aspecto de horas de trabalho e salário. Com frequência as exigências são maiores para os familiares. Certa vez uma pessoa não teve aumento porque, segundo a sua chefe (e tia) ela não precisava, pois era sustentada pelos pais em sua casa.

Quando temos um cargo superior, queremos o respeito hierárquico, mas este será justo tão somente se nós também respeitamos as hierarquias (abaixo ou acima de nós). Não acreditar no trabalho de um parente devido a sua postura familiar, dar a ele responsabilidades além da sua capacidade profissional, tolher a possibilidade de novos experimentos e não reconhecer o trabalho quanto a horas trabalhadas e salário, são preconceitos que só levam ao fracasso.

Esses ítens refletem-se diretamente na convivência familiar:

- o descrédito no trabalho será reforçado pela conduta do comportamento na intimidade, como por exemplo: "olha como tu lidas com o teu pai e ainda queres que eu te possibilite trabalhar com atendimento ao público?"

- a convivência familiar deve ser respeitada e não ser algumas "horinhas" a mais para planejar o trabalho. Isso não quer dizer que, eventualmente se fale sobre trabalho, mas a qualidade da família enquanto tal deve ser preservada.

- Há situações que a relação com o familiar torna-se mais distante, pois o empregado observa que virou saco de pancada do seu chefe - apenas por ter mais intimidade. Certa vez uma esposa, muito competente na sua área, foi trabalhar com o marido, pois este não dispunha de bons funcionários na área de marketing. O resultado é que o marido entrava em sua sala e gritava, dizia um monte de coisas acerca dos problemas na empresa e acabava reclamando grosseiramente da esposa. A explosão que ele não podia ter com os funcionários, tinha com a esposa e isto se refletia para além do horário de trabalho. O casal se separou.

Devemos refletir muito ao empregar um familiar. Que possamos auxiliá-lo de forma justa. E justiça, como diz Platão, é dar a cada um aquilo que lhe pertence!

Vera Regina Sebben