OBESIDADE COMO FUGA PSICOLÓGICA

Denomina-se obesidade uma enfermidade caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal associada a problemas de saúde, ou seja, que traz prejuízos à saúde do indivíduo. Portanto, o excesso de peso não deve ser encarado como um fator apenas estético. É um problema de saúde pública. 

São alarmantes os índices de obesidade relatados pelas instituições de saúde. Dados do IBGE mostram que 36% da população brasileira é obesa ou está acima do peso com significativo aumento de gordura, ou seja, o maior peso não é por aumento de massa muscular.

O mundo moderno colabora para isso: andamos muito pouco a pé, temos controle remoto para quase todos equipamentos que usamos, andamos de elevador e escada rolantes... É a lei do menor esforço, parceira da gordura e todos os males conseqüentes da vida sedentária.

Associado a esse fator “moderno”, é elevado o índice de transtornos emocionais em pessoas com problemas de obesidade. São líderes o tão usual conceito de estresse (100%), a depressão (cerca de 80%) e a ansiedade (cerca de 70%). 

Vamos ver melhor esses conceitos:

ESTRESSE:

É uma espécie de pressão externa que produz uma mudança no comportamento físico e no estado emocional, exigindo uma atitude do ser humano. O estresse faz parte da dinâmica da vida e traz um sentimento de insegurança pela necessidade de reação que provoca, manifestando-se como um impulso positivo e gerador de oportunidades, ou como fator de desgaste e restrição da boa qualidade de vida.

Ele é um propulsor que mantém as pessoas alertas para os desafios, mas quando essa pressão é por longo tempo ou está potencializada, pode deteriorar a saúde emocional e física, gerando o que conhecemos comumente por estresse, ou seja, um transtorno psicofísico. Nesse caso o agente estressor é vivido com intenso desprazer e por vezes provoca dores físicas.

 Os altos fatores de competitividade presentes desde a infância; a violência urbana, a necessidade de absorver uma quantidade cada vez maior de informações, a busca incessante por um ideal material, as exigências no campo profissional ou sócio-afetivo, produzem no homem destes tempos maior pressão e, ou seja, um nível de estresse acima do limite, se tornando, ao invés de uma “alavanca”, um “peso”, com sintomas que às vezes até impedem o desenvolvimento das capacidades plenas do indivíduo.

A linha entre a pressão saudável e a pressão nociva, é bastante tênue. É mais fácil percebermos os males relacionados ao estresse porque resulta, via de regra, na redução da qualidade de vida. Quando a pessoa não suporta a pressão, o estresse nocivo é vivido com intenso desprazer, provoca dores físicas e prejuízo no desempenho e na motivação.

Na tentativa de acabar com o sofrimento, a pessoa busca o prazer imediato. Comer é bom e nos remete ao conforto da infância, do seio da mãe e das reuniões em torno do alimento (é comum, depois de um dia estressante de trabalho, merecer: “um bom jantar sem restrições”).

Bate a gula. Ou uma fome daquelas! Na prática, é uma “fome emocional” na tentativa de compensar a perda da autoconfiança pelo sentimento de incapacidade de lidar com a pressão externa. Há necessidade de muita comida para preencher um vazio. E a comida deve ser muito saborosa para compensar a “falta de gosto” pela vida e então a escolha é pelos alimentos temperados, gordurosos, muito doces e “pesados” para trazer a sensação de saciedade.

Assim o estresse passa a ser um dos vilões da obesidade.

 

ANSIEDADE:

As instabilidades da vida trazem preocupação e uma reação conseqüente. E pessoas diante das mesmas circunstâncias podem reagir de forma diferente. A ansiedade é vivida como uma preocupação excessiva com algo que está ocorrendo ou ainda irá acontecer. Um certo nível de preocupação é saudável, pois impede a pessoa de se sentir segura demais e possibilita respostas de defesa em situações de risco.

A ansiedade é nociva quando persiste muito além da ameaça e gera insegurança em momentos que não se justificam. É uma espécie de medo, manifestada por uma sensação que não se relaciona diretamente a nenhuma situação vivida no presente, mas ao que imaginamos que vai acontecer. É uma sensação desagradável que persiste muito além da ameaça imediata.

Ocorre em momentos que não se justificam, pois não é medo de algo específico. A sensação de apreensão é manifestada por vários sintomas, como: aperto no peito, palpitações, sudorese, insônia, inquietação, vontade de acabar com esta sensação através da busca de prazer imediato (aí vem às compras compulsivas, o comer compulsivo, o uso de substâncias químicas, etc). É considerada um distúrbio (ansiedade generalizada, ansiedade induzida por substâncias, distúrbio do pânico, distúrbios fóbicos, transtorno obsessivo-compulsivo) quando é tão intensa ou duradoura que acaba interferindo nas atividades normais do indivíduo.

O ambiente (estressor) sinaliza perigo ou a necessidade de mudança e gera uma tensão interna pela insegurança de dar uma resposta (é a ansiedade saudável). Essa tensão pode ser potencializada e gerar um sentimento (preocupação/medo) que perdura muito depois do estresse ter desaparecido e a ameaça ter passado (é a ansiedade nociva). Essa resposta de ansiedade, não é necessariamente causada por uma ameaça externa; pode ser endógena (geradas por pensamentos e sentimentos internos reais ou imaginários).

Aqueles que não se permitem ao erro geram uma série de cobranças internas para acompanhar as enxurradas de estímulos internos e externos. Terminam esquecendo de si mesmas, fazem uma ação pensando já na outra e, sempre preocupados com o que pode acontecer, não aprendem com as experiências. Por fim não aprendem a conhecer os seus potenciais e se tornam ainda mais inseguras e ansiosas por situações que não sabem superar ou pouco sabem se vão de fato ocorrer. É um ciclo vicioso de insegurança: por medo de errar, que gera mais insegurança por não fazer as coisas no seu devido ritmo (o ansioso geralmente tem pressa), por não se conhecer (o ansioso não está focado no presente) e, por conseqüência, de estar a mercê de erros que retoma o ciclo ansioso.

A ansiedade faz com que a pessoa busque aconchego, muitas vezes representado no alimento, que inconscientemente remonta a infância, a proteção materna, ao viver descompromissado e feliz.

 DEPRESSÃO:

Depressão é uma doença que se caracteriza por afetar o estado de humor da pessoa de qualquer idade, deixando-a com um predomínio anormal de tristeza. Caracteriza-se por sensações extremas de abatimento, tristeza e vazio. A diferença entre depressão e tristeza é que a tristeza é passageira, sendo conseqüência de um fator adverso da vida e a depressão perdura sem motivo aparente.

É uma doença que altera o físico, o humor, os pensamentos, o comportamento, o modo como pensa a respeito de si mesmo e a respeito da vida.

Sintomas: falta de apetite e perda de peso ou, ao contrário, aumento de apetite com ganho de peso; insônia ou sono em excesso; mudanças nas atividades e comportamentos habituais; perda do interesse ou do prazer em atividades que eram prazerosas, inclusive sexual; cansaço excessivo, fadiga; perda de concentração, de atenção; irritabilidade ou raiva excessiva; queda acentuada no rendimento do trabalho e estudos; isolamento social; crises constantes de choro ou vontade de chorar sem conseguir; visão pessimista do futuro, ruminação de eventos do passado; sensações injustificadas de inutilidade, desvalorização, auto-acusação, culpas em relação a si mesmo e idéias de suicídio ou morte.

Pessoas com depressão tendem ao isolamento. Podem buscar preencher o vazio da solidão com comida: elegem a comida como única companhia.

Às vezes o alimento vem como uma necessidade de reforçar a baixa auto-estima da pessoa em depressão. Se alguém se sente um nada, um físico que socialmente é desfavorável ajudará a manter o estado depressivo. Outros trazem a necessidade de “crescer” fisicamente, aumentando a estrutura corporal de forma que seja percebido no ambiente e represente simbolicamente uma força, apesar de irreal.

O estresse, que é um grande teste da autoconfiança, pode gerar ansiedade pela insegurança e necessidade interna de não falhar; ou depressão, pela falta total de autoconfiança e de possibilidades de encarar sentimentos de angústia, carência, etc.


ASPECTOS IMPORTANTES:

A obesidade não está relacionada à fome e nem exclusivamente ao excesso de comida, mas a escolha do alimento e o papel que ele tem na nossa vida. A obesidade é sem dúvida, uma doença multifatorial, que envolve fatores genéticos, ambientais, sociais, psicológicos e provavelmente raciais.

Precisamos inicialmente aprender a lidar com o nosso corpo, respeitando suas características. Não adianta termos 40 anos e querer um corpo de 15, associando a felicidade a ausência da discreta “barriguinha”. A denominada "cultura do esbelto", que tem como princípio à valorização desmedida da estética corporal, gera uma preocupação que, associada ao estresse, ansiedade ou depressão, podem resultar numa desordem e aumento da alimentação e conseqüente aumento de peso.

Dentro da psicologia, o alimento quando visto de forma saudável, representa o cuidado, o carinho, o compartilhar, o seio materno que provém vida, segurança e prazer. Só que o homem adulto precisa buscar também outras formas de prazer e conjugar experiências, que não só no alimento.

O que ocorre é que as pessoas que estão em situação de fragilidade (deprimidas, estressadas...) acabam desenvolvendo uma compulsão por este elemento do início da vida, que é o alimento. Então toma espaço uma alimentação exagerada, que tem por traz sempre a busca do prazer, de cessar imediatamente um sentimento que incomoda. O alimento é a forma que a pessoa encontrou de relacionar o seu mundo interno (seus conflitos) com o externo. Ele toma o lugar de preencher um vazio, o que requer com freqüência um alimento “pesado” e não frutas e verduras. A escolha do alimento está à necessidade de liberar agressividade (talvez alimentos onde exige intensa mastigação), a ser acariciado sem esforço (alimentos que “escorregam” pela garganta, como o leite materno) e principalmente a trazer a sensação de saciedade (comer até se sentir desconfortavelmente empanturrado).

Outro fator psicológico importante é o ambiente. Uma família, por exemplo, onde as pessoas são gordas e freqüentemente terão hábitos e valores incorporados, se tiver um magro no meio estará fora de sintonia.

O grande desafio é vencer a compulsão, pois no ato de comer, não há preocupação com o peso e a forma do corpo. A culpa vem depois. As pessoas com este transtorno apresentam freqüentes crises, durante as quais sentem que não podem parar de comer (como os “ataques” a geladeira). Comem depressa e às escondidas, ou não deixam de comer o dia todo (mesmo sem fome). Algumas pessoas relatam que preferem comer sozinhas, com vergonha da quantidade.

Pessoas com estas características sentem-se culpadas e envergonhados por sua falta de controle e têm um histórico de fracassos em diversas dietas para emagrecimento. Normalmente esses diversos fatores geram um ciclo vicioso: fatores psicológicos, compulsão, alimentação desregulada e sobre-peso que vão reforçar os aspectos psicológicos e desenvolver outros transtornos ou reforçar as debilidades iniciais.

Para lidar com o sobre-peso e com o aspecto corporal não precisa esperar a situação mais difícil, quando a pessoa já não tem controle das situações; quando se sente mal ou quando sua auto-estima está baixa. O caminho de volta é difícil, mas não impossível e os especialistas podem auxiliar no processo quando a pessoa não consegue sozinha (um psicólogo, um nutricionista, um médico).

O homem moderno precisa buscar o prazer do alimento, confiante em suas habilidades, e de posse da situação pessoal. Sempre que necessário, pode buscar auxílio para monitorar seus níveis de estresse, aprender a lidar melhor com as dificuldades e as próprias frustrações, saber dissipar os conflitos em momentos de lazer e prazer (que não ficará focado só no alimento). Com estas condutas, evita-se que as diferentes vivências emocionais se transforme em obesidade.

 

O TRATAMENTO COM PSICÓLOGO

A Psicologia tem diversas linhas de trabalho; isto é, existem diferentes teorias que pretendem compreender o funcionamento psicológico e definem a psique de modo distinto também.

Em termos de tratamento direto sobre a obesidade, ou seja, sobre produzir emagrecimento, a psicoterapia busca eliminar comportamentos indesejáveis e prejudiciais ao indivíduo, por vezes substituindo por outros ou tirando-lhes o grau de importância e significado de modo que possam ser abandonados. Busca também causas mais profundas e significados mais inconscientes para o ato de comer, para a comida, para a emoção que acompanha o alimento, para a vida e a história do indivíduo que padece da obesidade, seus sofrimentos e ganhos.

Neste sentido, a preocupação central não é emagrecer o indivíduo, mas considerar a experiência pessoal e particular de cada um enquanto obeso.

No trabalho psicoterapêutico, as entrevistas objetivam a conscientização de que o sujeito não pode se manter passivo sendo emagrecido como que num passe de mágica, mas implica sim em um ônus que marca principalmente o campo psíquico. O tratamento precipita uma série de transformações que afetam as relações do indivíduo consigo próprio e com os outros, pois de nada adianta regimes malucos ou exercícios mal-feitos se você está insatisfeito com sua vida. A insatisfação e a infelicidade também dificultam o processo de emagrecimento

A terapia pode ajudar a...

-   descobrir que você tem outros prazeres na vida, além de comer.

-   perceber qual o seu peso ideal e natural (não imposto pelas revistas de moda)

-   dominar o impulso de comer e a demonstrar que a compulsão provoca um prazer imediato, que não compensa a satisfação a longo prazo de ficar magra.

-   aumentar a adesão à dieta. Pode ajudá-la a ser perseverante, já que 66% das pessoas desistem no meio do caminho.

-   ensinar a diferença entre fome e vontade de comer pela confusão mental/ sentimental.

-   Aprender a lidar com a culpa.

-   deixar claro que a responsabilidade de emagrecer é de quem está acima do peso. Não adianta o médico mandar fazer dieta ou o namorado querer que você emagreça.

-   restabelecer a auto-estima, que geralmente fica abalada quando estamos fora do peso.

-   eliminar mitos arraigados, como o de deixar restos no prato é feio, comida no lixo é pecado ou de que é preciso comer para deixar a mamãe feliz.

-   alterar comportamentos que contribuem para o aumento de peso, como, por exemplo, comer depressa demais, sem perceber o quanto, etc.

-   perceber que um lanche fora de hora esporadicamente não compromete a silhueta. O problema é compensar emoções negativas na mesa.

-    A terapia ensina a diferenciar a fome do vazio sentimental, melhora a auto-estima, e ajuda a entender as emoções, possibilitando uma vida mais feliz.

Vera Regina Sebben 

Palestra apresentada na II Semana da Saúde

Associação Cultural Nova Acrópole – Porto Alegre

Agosto/2005