Indignação.... de que forma nos protegermos dela???

    Indignar-se. Ainda é possível??

Antes de tudo vamos pensar no significado dessa palavra: indignar-se é não sentir-se digno. É ser desprezível, baixo, revoltado, colérico.

Quem de nós já não sentiu-se assim?? E manifestamos esse sentimento? Geralmente lidamos com isso de duas formas:

-   colocamos para fora a nossa indignação e pagamos no meio a conseqüência disso. Aí ficamos com mais raiva - talvez então raiva de nós mesmos.

-   disfarçamos o que sentimos e então geramos um aperto no peito, um sentimento de insatisfação que se manifesta nos momentos mais estranhos. As vezes estamos numa praia maravilhosa, de férias e tem algo dentro de nós que nos incomoda, que nos aperta o peito e não sabemos dizer o que é. Então ficamos indignados.

Nas duas situações, percebe-se que há uma insatisfação consigo mesmo e isto fica escondido, ou por manifestarmos nossa indignação ou por não tê-la colocado para fora. Então, disfarçamos o que sentimos, usando máscaras para nos protegermos. Na verdade, nossa vida é um grande teatro: temos uma máscara para o trabalho - onde nos comportamos de determinada forma, temos outra máscara para o nosso papel de pai ou mãe - onde incorporamos outro jeito de ser, temos uma máscara para a vida social, para as festas... e tantas outras.

Isso não é de fato um problema. O problema é que nos apegamos mais a determinadas máscaras e com freqüência são aquelas que manifestam valores, digamos...  não tão humanos, mais instintivos. Digo não humano, porque é a dignidade, a honra, as virtudes... o que nos faz humano.

Ao contrário da ação virtuosa, vivemos uma disseminação de que se deve criticar. E assim nos detemos muito mais na crítica que na solução dos problemas. E a crítica, com freqüência, não muda nada. Não faz a diferença no mundo. Faz para nós, que ficamos ainda mais indignados com a falta de resultado.

...percebe-se que há uma insatisfação consigo mesmo e isto fica escondido, ou por manifestarmos nossa indignação ou por não tê-la colocado para fora. Então, disfarçamos o que sentimos, usando máscaras para nos protegermos. 

 

 

 

 

     

Por isso, muitas vezes suprimimos a nossa possibilidade de indignarmo-nos. Perdemos o referencial que a história das grandes civilizações nos conta. De um homem virtuoso, digno e com princípios fortes, que ao indignar-se fazia a diferença. Temos aí o exemplo do filme Gladiador, recém lançado em Porto Alegre, que com sua indignação foi digno e partiu para a ação. E porque fazia a diferença?? Porque não ficava apegado a crítica, a máscara da indignação, ou a máscara da vítima, ou a qualquer outra máscara que usamos nos diferentes papéis que ocupamos ao longo da vida.

Nós nos apegamos muito a determinado sentimento e esquecemos que somos um universo. E como um universo, há uma espécie de sol, que liga todas as nossas máscaras, que é a nossa essência, o nosso Eu mais profundo, mais puro, mais nobre, mais digno. Aí está o harmonizador de todas as máscaras. É do nosso Eu mais profundo, da nossa alma - como dizia Platão, que devemos buscar inspiração para as nossas emoções e pensamentos.

E aí? O que fazemos com a indignação? No momento que nos desapegamos de uma determinada máscara de raiva, de indignação e nos dispomos cultivar sentimentos mais nobres, a nos inspirar no que o homem tem de mais puro e permitir a expressão destes sentimentos, há uma transformação da indignação para o ato positivo. Começamos a lutar em nome de algo maior: a dignidade humana. Isso não é receita de bolo e parece absurdo no contexto atual, mas é o caminho da evolução humana apontado por dois grandes filósofos da humanidade: Sócrates e Platão. Pela sabedoria que nos deixaram, vale uma reflexão.

Se buscarmos inspiração na natureza, eu diria que deveríamos ser como uma rosa, que mesmo quando é colhida e se interrompe o seu alimento com a terra, não deixa de oferecer a sua suavidade, a sua beleza, o seu perfume. Eis a essência humana: a manifestação de sentimentos nobres que nos inspira para uma maior consciência do que somos!!!

Vera Regina Sebben (Julho/2002)