Felicidade a venda?

Hoje em dia as ideologias perderam-se e estão confusas. Os valores estão todos projetados para o externo e não na busca do que trazemos no nosso Eu mais íntimo. Os últimos anos são marcados pelo o que a Rita Lee chamou de “geração iogurte”, de culto ao corpo, de incentivo aos esportes e de luta contra a obesidade, em contrapartida às irregularidades alimentares e liberdade de ação apreciadas neste final de século. O corpo e a boa aparência são uma representação importante para a aceitação num grupo, estabelecendo um modelo, uma forma pela qual devemos nos apresentar socialmente. Precisamos estar o mais magro possível, com a musculatura "malhada", com uma roupa moderna e é claro, com um sorriso estampado no rosto.
Em função de uma imagem ideal, nos lançamos a um elevado grau de valorização do consumo, gastando muito dinheiro e toda a nossa energia psíquica para um pretenso bem-estar. Este ideal é então uma imagem, um modelo de beleza física e de felicidade.

Nessa perspectiva, nos últimos anos assistimos uma enxurrada de ritos exotéricos, de talismãs e objetos que levam a busca da religiosidade. Novamente o valor é a imagem, a pulseira tribal, o colar de determinada pedra, a estátua do santo e outros tantos objetos que passaram a enfeitar casas e roupas. Chamamos enfeites porque é questionável se estes símbolos exotéricos, se estes objetos religiosos, que pela palavra religião teriam a função de religar o homem ao divino - cumprem de fato a sua função. Será que levam o homem ao seu Eu mais profundo e propiciam uma reflexão para as mudanças que os símbolos representam? Ou estes objetos estão a serviço de uma imagem, de mostrar para quem os porta e para a sociedade que temos vida interior, somos espiritualizados, buscamos a nós mesmos e portanto a felicidade? São questionamentos que não podemos generalizar, mas nos remetem a mais uma possibilidade da "felicidade" estar a venda.

Toda a busca de si é muito dolorida. É difícil olharmos para os nossos próprios "bichos", pois isto significa olharmos para dentro e não estamos habituados a nos ouvir. Ouvimos as opiniões e sentimentos da vizinha, da professora da escola, do marido... mas ignoramos as coisas que nos incomodam, pois temos um cotidiano pra levar e uma imagem para "vender". A este ponto esbarramos na dificuldade de manter o sorriso e então mergulhamos na enxurrada de informações que o mundo nos oferece em busca de uma saída. Com freqüência o uso medicamentoso desnecessário passa a ser uma "boa opção". Um exemplo disso é o uso diário da Aspirina por algumas pessoas, pois alguém anunciou em determinado momento que reduz o colesterol. Não discuto aqui os benefícios médicos da Aspirina, mas não seria mais fácil termos uma alimentação saudável e assim controlar o colesterol e alongar a vida? Se devêssemos tomar tanto medicamento seríamos como cangurus, com marsúpios para carregar uma série de medicamentos.

Da mesma forma me refiro ao uso abusivo dos medicamentos para a ansiedade, depressão, os soníferos... Os psicotrópicos, como tecnicamente são chamados, são instrumentos de auxílio que devem ser usados com muita cautela, em casos de extrema necessidade e dentro do contexto de um tratamento, pois podem ser muito prejudiciais a saúde. Além de efeitos colaterais, os medicamentos psicotrópicos amenizam sintomas, mas não resolvem, por exemplo, os nossos relacionamentos e não nos trazem virtudes que nós não nos desempenhemos para conquistá-las. Com a droga, disfarçamos o que sentimos e então geramos um aperto no peito, um sentimento de insatisfação que se manifesta nos momentos mais estranhos. As vezes estamos numa praia maravilhosa, de férias e tem algo dentro de nós que nos incomoda, que nos aperta o peito e não sabemos dizer o que é. Há uma insatisfação conosco mesmos e isto fica escondido. Pode-se dizer então, que nestes casos a medicação faz apenas o papel de um afeto, só que é um afeto químico e que compramos sempre que desejamos. Mais uma vez, parece-nos que a felicidade está a venda!

De nada adianta o sorriso no rosto sem sentido e a "venda" da auto-imagem, pois a fuga de si faz brotar uma sociedade produtora de vítimas de isolamento e conseqüente solidão. Mais do que aparência e olhar para o lado, precisamos olhar para o lado de dentro. A felicidade não é uma dádiva, mas o resultado de uma conquista interna, de um olhar para dentro que possibilita uma maior consciência do que somos e queremos. A partir de então, é possível uma mudança de postura e o alcance da felicidade de fato. Que não está a venda.

Vera Regina Sebben