Os desafios da beleza

         O Brasil é um dos países onde a cirurgia plástica adquiriu prestígio internacional, tanto pelo desenvolvimento das suas técnicas quanto pelo alto índice de adesão. Brasileiro é obcecado por beleza.

A beleza abre portas. Traz vantagens, principalmente em um país voltado para o fútil como o Brasil. Ela é um instrumento que pode facilitar a vida, mas ser bonita não é ser feliz. Temos o exemplo de Marilyn Moroe, um ícone de beleza que se matou.

         Dependendo de como encaramos, ser bela torna-se uma carga, por vezes difícil de carregar. Manter um corpo bonito pode ser uma opção prazerosa ou uma restrição, o que significa sofrimento. Nesse caso, dietas, exercícios, sono controlado, passam a ser uma tortura, uma obsessão que suga energia, tira a vitalidade e produz doença. Na busca da beleza, a vida se torna artificial, a pessoa “que habita o corpo” fica em segundo plano, funciona como um robô e vive infeliz por traz de uma aparência invejável para muitos.

 

Na busca da beleza, a vida se torna artificial, a pessoa fica em segundo plano, funciona como um robô e vive infeliz por traz de uma aparência invejável para muitos.

 

 

 

     

       A beleza também atrapalha nos relacionamentos, principalmente quando se trata de mulheres, que em geral são mais detalhistas e se sentem ameaçadas com a beleza alheia. Tanto a exuberância quando ou o se sentir diminuída, gera um afastamento dentro de um jogo de poder onde impera as vaidades.

Trabalhei muito tempo com modelos, pessoas “gente como a gente” e que, apesar da exímia beleza, a cada seleção para um trabalho (desfile, fotos..) sofrem por ter barba cerrada, 2 cm a menos ou qualquer outro quesito que não possibilita em dado momento ser a pessoa mais bela. Nessas horas é difícil manter a auto-estima, pois todos os valores estão colocados num biótipo, que neste momento não é favorável. Assim os modelos passam a ser adversários, o ambiente fica pesado e trabalhar no mundo da moda torna-se uma batalha muito competitiva e difícil de suportar. Aí vem o stress, a depressão, o transtorno alimentar, a insegurança e o sofrimento psíquico intenso.

Um outro aspecto que a beleza interfere diretamente é sobre a idade. Se passamos a vida inteira dedicada ao corpo, a beleza física e vivemos numa sociedade onde a beleza está colocada na juventude, como ficamos quando a idade chega?

Precisamos descobrir onde está a nossa beleza. Será que não vale a pena resgatar algo de belo que seja mais duradouro? A verdadeira beleza é uma manifestação, é um jeito de ser, de se portar. É a expressão de valores de alma, que torna agradável ao olhar, mesmo quando fora dos padrões de beleza. Que conquista não por ser um modelo, mas por mostrar fora o que temos dentro. A beleza humana!

Vera Regina Sebben (Setembro/2005)